Meta da taxa Selic
A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira, utilizada principalmente pelo Banco Central como forma de política monetária.
O Comitê de Política Monetária (Copom), composto por oito membros da Diretoria Colegiada do Banco Central, se reúne a cada 45 dias para definição da meta da taxa básica de juros. O intuito dessa definição é impulsionar, conter ou manter a atividade econômica do Brasil e consequentemente a inflação.
Desde o início da pandemia no ano de 2020, os dados de inflação seguiam pressionados, causando perda do poder de compra da população e impossibilitando redução da taxa de juros. Conforme o IPCA e os núcleos de inflação foram convergindo para o centro da meta, o Banco Central anunciou os primeiros cortes na taxa Selic, de forma controlada.
A última reunião do Copom realizada no dia 20 de setembro de 2023 foi marcada por mais uma redução na taxa de juros, em 0,50 pontos percentuais, levando a meta da taxa Selic em 12,75% ao ano e não descartando novos cortes ainda neste ano.
O esperado após essa reunião, seria uma valorização da bolsa de valores, já que este é um movimento normalmente padrão, devido a correlação negativa que existe entre esses dois indicadores. Infelizmente não foi o que pudemos observar.
Correlação entre Ibovespa e taxa Selic
No mercado financeiro existem indicadores que são descorrelacionados, isso significa que enquanto um indicador apresenta valorização ou aumento, o outro, pode apresentar desvalorização ou queda.
Muitas vezes utilizamos esse tipo de descorrelação para criar proteção em carteiras de investimentos, possibilitando que enquanto um ativo apresente desvalorização, a carteira possa se manter equilibrada em termos de rentabilidade, por possuir um ativo que neste momento tende a apresentar valorização.
Historicamente é possível observar a correlação negativa entre a taxa Selic e o índice Ibovespa, uma vez que quando a taxa de juros está elevada, as empresas tendem a apresentar resultados piores ou mais conservadores. As dívidas das empresas tendem a ficar mais caras, por conta do aumento da taxa Selic, que reflete diretamente no custo dessas companhias. Não menos importante, quando a taxa básica de juros está elevada, o consumo tende a diminuir, o que impacta diretamente no lucro das empresas.
Com esse cenário, os preços das ações negociadas em bolsa também reduzem, à medida em que a taxa de juros aumenta, causando a queda do índice Ibovespa.
O inverso também é verdadeiro, a medida em que a taxa de juros apresenta redução, o ciclo aos poucos tende a se inverter, refletindo no preço das ações negociadas na bolsa de valores e consequentemente no índice Ibovespa.
Por essa razão, é esperado que cada corte na taxa de juros, resulte na valorização no preço das ações negociadas na bolsa de valores e no seu índice.
Por que a bolsa caiu com o corte na Selic
É sabido que o mercado financeiro é previsível, porém não eficiente. Por essa razão, nem sempre aquilo que é previsto, acontece. Esse é o caso do corte na taxa de juros e ainda assim resultados negativos, como a queda na bolsa de valores, o aumento dos juros futuros e a desvalorização do real frente ao dólar. Mas existe uma razão para esse cenário que se formou.
Não podemos descartar o fato de vivermos em uma economia globalizada, por essa razão, não são apenas dados internos que ditam a direção do mercado.
A economia norte-americana, é a maior economia do mundo, e atualmente está passando por um ciclo econômico inverso ao nosso. O movimento é de conter a inflação, que está a níveis mais altos dos últimos 40 anos, através de uma política monetária contracionista, aumentando a taxa de juros.
Na mesma data em que houve a reunião do Copom, houve também a reunião do Fomc (Federal Open Market Committee), o comitê de política monetária dos Estados Unidos. Por lá foi definido que a taxa básica de juros norte-americana permaneceria nos níveis atuais, entre 5,25% a 5,50% ao ano. O que não agradou foi o tom do presidente do Fed, Jerome Powell, que não descartou novos aumentos na taxa e manteve um tom hawkish em seu discurso.
Com isso, a diferença entre a taxa de juros brasileira e a taxa de juros norte-americana, se torna cada vez menor.
A consequência dessa diferença cada vez menor, pode ser a fuga de capital estrangeiro do Brasil para o exterior, já que o risco que o Brasil oferece aos investidores, pelo retorno que está sendo pago, não é vantajoso, se comparado ao risco que os Estados Unidos oferecem, pela remuneração que entrega.
O movimento da queda na bolsa de valores brasileira, desvalorização do real e aumentos dos juros futuros, é um reflexo do cenário que possivelmente poderá acontecer, e o mercado antecipa esses cenários, no preço.
Com a fuga de capital estrangeiro do Brasil para o exterior, poderemos ver uma desvalorização do real frente ao dólar, queda na bolsa de valores e futuramente um aumento no preço dos produtos que possuem dolarização na sua cadeira produtiva. Podendo ainda causar o aumento da inflação futura e consequentemente, o Banco Central precisar aumentar novamente a taxa de juros.
Além de todo esse cenário que o mercado precificou, não podemos esquecer do risco fiscal que o Brasil está apresentando.
Para o ano de 2023 as contas públicas fecharão em déficit, devido aos aumentos dos gastos públicos. Para o ano de 2024 a expectativa é de que haja um déficit de 168 bilhões de reais, e o governo planeja não entregar o ano de 2024 novamente com déficit. Com isso o plano proposto é o de aumento nas arrecadações. Esse cenário e risco fiscal também é precificado nos ativos pelo mercado.
Isso não quer dizer que vá acontecer, porém o mercado pode reagir de diversas formas ao que está acontecendo no Brasil e no mundo.
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